GALDINO
LUTAS INDIGENIA/GALDINO
(escreveu par dub traducao par dubliterator)
Estou aqui na frente do Palácio do Governo em
Brasília. Quase zombando de um grande banner num muro
que diz: “Terra e justiça para os povos indígenas”.
Os povos indígenas do Brasil reuniram-se aqui para o
julgamento de quatro dos jovens bem-nascidos acusados
do assassinato de Galdino, um Ìndio Pataxó, em 1997.
Galdino esteve em Brasília naquela época para um
encontro de povos indígena. Como não encontrou
hospedagem, dormia na calçada enquanto os jovens
jogaram gasolina sobre seu corpo e atearam fogo. Ele
morreu com queimaduras em mais de 90% de seu corpo.
Como aconteceu logo que cheguei, as fotos do corpo
queimado de Galdino, feita pelos legistas, estavam
sendo mostrada para seus pais. Todos os outros índios
a minha volta começam a chorar quando vÍem as fotos
pela primeira vez.
Um dos jovens índios presentes para o julgamento se
aproxima de mim. Apesar de sua face estar pintada de
vermelho e ele estar usando um cocar com penas de um
azul vibrante, é a sensação de uma silenciosa mas
forte determinação que ele demonstra que realmente
chama minha atenção.
Ele diz que sabe que estou tentando entender o que
estou acontecendo ali e diz para eu observar,
mostrando-me as terríveis fotos do cadáver queimado de
Galdino. Palavras não podem descrever como foi
horrível olhar aquilo.
A defesa dos jovens acusados foi uma piada. Entre
algumas das expressões que usaram, disseram que
pensaram que era só um mendigo a pessoa que queimaram.
Filhos de juízes e de famílias de classe social
elevada da capital do Brasil, os quatro jovens ficaram
em celas especiais até o julgamento. Em contraste com
as minúsculas e sujas celas, com chuveiros gelados e
sem nenhum conforto que outros ocupantes são obrigados
a ficar, os quatro jovens dividiram uma enorme cela
especial, com TV, pesos para exercÌcios, chuveiros
quentes, mesas, luzes especiais e uma janela sem
grades, para deixar o sol entrar.
Durante o julgamento, a mãe de um dos acusados deixou
o tribunal chorando. Um jornalista comenta o fato para
a mãe de Galdino, Minervina. Fico perturbado com o tom
do jornalista, como se os acusados fossem agora as
vítimas.
Entretanto, Minervina respondeu em tom desafiador:
“Quero que ela chore. Comparado ao que eu sofri, ela
não sofreu nada. Ela ainda pode ver seus filhos. Eu
nunca mais verei o meu”.
O estereótipo dos índios, como pessoas que estão
sempre prontas para perdoar e esquecer, recebe um
golpe neste momento.
A sentença é deferida. Os acusados são condenados a
uma sentença de quatorze anos e pena máxima de vinte
anos, mas o fato é que poderiam ser libertados no
período de três anos após a sentença.
Alguns dias depois, estou na cidade de São LuÌs, no
Maranhão. Chamou minha atenção o fato de quando eu
conversei com os brasilienses sobre o julgamento,
todos ficaram horrorizados e apoiaram a famÌlia de
Galdino.
Também percebi que não somente uma pessoa com quem
conversei, comentou sobre a questão do direito dos
povos indígenas a ter sua terra. Uma das respostas que
mais chamou minha atenção foi de um agente de viagens
de meia-idade.
Quando comentei que estive em Brasília para o
julgamento, o homem parou o que estava fazendo e tirou
os óculos. De repente, percebi que seu olhar foi
longe.
Ele disse: não acredito que a prisão resolva alguma
coisa. Realmente, acredito que as pessoas saem de lá
piores do que quando entraram, mas não posso concordar
com esta sentença. Já imaginou se fosse o oposto, se
um índio Pataxó viesse e queimasse um destes garotos
ricos. Eles pegariam pena máxima de vinte anos.
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